sexta-feira, 10 de junho de 2011

"Ouvir" Tarzan Boy

"Ouvir"
A última categoria da caderneta de cromos e, para mim, a mais relevante. Pois o género de músicas abordadas nesta categoria são intemporais. Relembro aqui, com o vídeo, o hit Tarzan Boy, dos Baltimora. Lembro-me perfeitamente de ouvir isto em casa quando era mais novo. Este vinil consta da colecção que o meu pai, tão gentilmente, me passou e que eu guardo e respeito acima de qualquer outra coisa. Enfim, poucos terão a capacidade de perceber esta minha ligação aos 80's.

"Ver" Vitinho

Tenho saudades de que me mandem para a cama. Várias gerações de crianças foram mandadas para a cama por entidades diferentes: - Os Meninos Rabinos, O Vitinho, Os Patinhos, hoje em dia, o Panda (foleiro). Mas tenho pena que os adultos nunca tenham sido mandados para a cama com o mesmo aconchego. Nos anos 70 e 80 eram mandados para a cama com o hino nacional. Uma pessoa depois de ouvir o hino fica com vontade de jogar à bola, não de dormir.
É como se uma estação de televisão fosse um serviço como outro qualquer, sei lá. Uma loja. Um restaurante. Uma pessoa vai a correr e em vez de perguntar se ainda vai a tempo de comer alguma coisa, pergunta:
"Ainda vou a tempo de ver um filme?"
Não, meu amigo, temos pena - já estamos a fechar. Agora só o hino."
"Ah, OK, obrigado. Nem sequer uma tosta?"
"Não, já fechamos a caixa. Agora só mesmo o hino."


Mediatismo de "Livro"

José Luís Peixoto fala de "Livro" no programa "Ler mais, ler melhor".

Porquê, "Livro"?

Inicialmente sugerida pela docente da Unidade Curricular, Professora Dina Baptista, a leitura de "Livro" revelar-se-ia surpreendente. Confesso que desconhecia a obra de José Luís Peixoto, mas de facto a sua escrita é sublime e cativante. O realismo das descrições, a autenticidade das personagens, a simplicidade da escrita, mas também a forma apaixonada como retrata o seu Portugal, são apenas alguns dos motivos para a leitura de "Livro". Para além do referido, JLP descreve com exactidão as histórias de vida dos muitos emigrantes que, ano após ano, partiam(em) em busca de uma vida melhor. Numa clara homenagem aqueles que sacrificam o abandono da sua terra, das suas gentes, o autor distingue de forma magnifica, a ruralidade, a pobreza, a má formação (Portugal) e o ambiente urbano, eloquente, enriquecedor e próspero (França).
Um ultima referência para as ilustrações do livro que, na minha opinião, deveriam ser marcadas por ícones alusivos à emigração, como a imagem que descreve a partida de comboio dos muitos emigrantes para parte incerta do globo.

Penso que a minha escolha foi acertada e bastante enriquecedora. Aconselho vivamente!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Estorvo


O que me levou a ler este livro foi a curiosidade de ver a escrita de Chico Buarque, uma vez que eu sou um adepto incondicional das suas músicas.
Embora a obra "Estorvo" não seja e ex-libris do escritor eu gostei bastante de o ter lido.
Aliás tanto gostei de ler um livro do Chico Buarque, que já estou a ler outra obra realizada por ele, que se chama "Budapeste".

"Usar" Calças que picam

"Usar", é outro capítulo desta Caderneta de Cromos, e não menos hilariante!
Lembro-me perfeitamente de uma camisola que a minha mãe me "obrigava" a usar, porque era quentinha e gira (dizia ela)! No entanto, apesar de me proteger do frio, enchia-me o corpo de comichões.
Ora, um dos temas abordados neste capítulo incide sobre esta mesma situação, mas nas pernas. Nuno Markl fala-nos da sua experiência com "Calças que picam".
"É uma coisa muito própria dos anos 70 e eu quero acreditar que as nossas mães nos faziam usar essas calças para nos prepararem para a vida. (...) de uma forma quase metafórica e poética, para nos prepararem para o facto de a vida conter algum sofrimento e não ser um mar de rosas.

"Brincar" Bate-pé

O segundo capítulo da Caderneta de Cromos é composto por uma panóplia de jogos e brincadeiras, desde o Cubo Mágico, passando pelos Berlindes, até à célebre pirataria da ZX Spectrum. Aproveitando a dica da Carla, com o seu post sobre o primeiro beijo, venho aqui deixar referência a um jogo que, decerto, animou muitos dos nossos tempos livres.
Jogar ao BATE-PÉ!!!
"As regras do Bate-pé eram a coisa mais volátil do mundo.
Os rapazes ficavam de um lado, as raparigas do outro e havia um código de números - 1 a 10 - em que cada número equivalia a um acto crescentemente arriscado. Por exemplo, o número 1 era um aperto de mão. O número 2 era um beijo na mão. O número 3 era um beijo na cara... Estão a perceber a coisa, certo? E, pronto, um rapaz dirigia-se a uma rapariga, dizia um número, e ela, se não quisesse levar a cabo uma operação correspondente ao número, batia o pé..."
Era uma das melhores maneiras de participarmos numa espécie de orgia com as miúdas mais giras da escola, sem constrangimentos nem compromissos. A causa maior era o Beijo!

Estorvo


A cidade transforma-se num imenso deserto, onde tudo perdeu o sentido.

Podemos dizer que este livro é a expressão máxima da solidão humana.
Sem dúvida um livro cheio de beleza literária onde faltará, porventura, uma estrutura narrativa capaz de enredar o leitor naquilo que a maioria de nós procura num livro: uma "estória". Estorvo não é uma "estória", é a alma de um homem que é estorvo no mundo. Ou melhor, a "estória" de um mundo que é estorvo para um homem

Livro, viens ici

"Ás oito e meia, saiu disparado para chamar um carro de praça. Ela a soprar, a soprar, assustada. Às dez, estavam a entrar na maternidade. Ela, tapada com um lençol, a querer levantar-se da maca. Foi às duas e meia da tarde, boa hora, Foi às duas e meia da tarde que eu nasci."
Fantástica a descrição de José Luis Peixoto do nascimento de Livro, filho de Adelaide e  Ilidio, ainda que o marido de Adelaide seja Constantino. Nascido em França, Livro é um jovem culto e frequenta a melhor Universidade em Sorbonne. Esta personagem tem perfeita noção do fosso cultural existente entre Portugueses e Franceses. A indefinição das suas raízes, fruto do seu registo francês e, simultaneamente, Português, provocam-lhe um sentimento de indefinição sobre a sua Pátria-Mãe. Livro "encarna" todos aqueles que não adoptaram, Portugal ou França, como  países de origem, fruto das mudanças culturais. Nestes casos verifica-se a transmissão de traços culturais de uma sociedade para a outra.

La belle Paris

A segunda parte da obra retrata vivência dos Portugueses em  França. As condições de vida em Portugal não eram as desejadas, o sistema politico vigente era rigoroso, ditatorial e a guerra colonial era uma "constante" incerteza. Assim, a emigração surge como a tentativa de melhoria das condições precárias para muitos Portugueses. Em França tudo ganha nova vida, tudo é mais risonho, os salários mais elevados e aqueles que partem agarram as oportunidades que surgem. Enquanto Cosme arranja um trabalho como porteiro num Hospital, Adelaide desdobra-se, fazendo limpezas na casa dos Franceses. Já Ilidio, à semelhança de muitos Portugueses acabaria por ir trabalhar para as obras. As diferenças entre o Portugal rural e a vida citadina de Paris são gritantes.
"A Adelaide e a Libânia deram as mãos quando o comboio entrou nos arredores de Paris. Tanto se admiraram com os prédios, como com as fábricas, com os armazéns, como com as pessoas que estavam suspensas na estações onde o comboio passava sem parar."

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Beija-Mim

E porquê este livro...?
Sinceramente a minha escolha residiu essencialmente no facto de conhecer o autor e na curiosidade que o livro me despertou pelo seu título original.
Enquanto leitora que adora romances, achei pela sinopse do livro, que seria bastante interessante recuar um pouco à minha adolescência e poder rever talvez a história de Benjamin...
Agora, depois da leitura e respectiva análise ao livro estarem efectuadas, recomendo que todos o leiam...pelo carinho, pela inocência, pela ternura, pela "delícia" de em parte "encarnarmos" nesta personagem muito engraçada e que reflecte em muitas linhas a vida de alguns jovens.
Um livro que embora se destine, de um modo mais amplo, a adolescentes, faz as maravilhas também dos adultos.

Beija-Mim

Nada melhor do que roubar um beijo...o primeiro beijo...ou não...escutem esta linda música portuguesa!!!

Censura e eufemismos infantilizantes...


«Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queimemo-lo. A Cabana do Pai Tomás não agrada aos brancos. Queimemo-lo. Um tipo escreveu um livro sobre o tabaco e o cancro do pulmão? Os fumadores de cigarros ficam consternados. Queimemos o livro. (…) Liquidemos os problemas, ou melhor ainda, lancemo-los no incinerador. (…) Queimemo-los, queimemos tudo.»

A teoria, explicada pelo capitão dos bombeiros, Beatty, a Montag, resume a filosofia vigente. Só no livro? Bem, talvez não tenhamos chegado a tanto, mas a tendência actual é para eufemizar tudo, da velhice à morte, do perigo à tristeza. O que não queimamos, escondemos. O que não embelezamos, tratamos com anti-depressivos. Teríamos hoje as obras-primas da literatura, e de outras artes, se os seus autores tivessem vivido na era Prozac? Mesmo em Portugal, país que Miguel de Unanumo chamou de suicida, o que seria de O Só, de António Nobre? Da poesia de Florbela Espanca ou de Fernando Pessoa? O que seria de nós sem o direito a aceder ao nosso lado lunar?
O que será de nós...






terça-feira, 7 de junho de 2011

Estorvo


No livro "Estorvo" a personagem principal vive em permanente equilíbrio precário entre o sonho e a vigília, o real e o pesadelo, a inquietação e o medo, sempre na margem do mundo. Vítima da modernidade, ele narra-nos os seus dramas submetendo a eles todo o percurso narrativo, num monólogo interior em que narrador, personagem e autor se misturam.

Perde-se o sentido da vida; perdem-se as raízes do ser…

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Memória e dignidade

"Seja um homem, Senhor Ridley. Vamos hoje, pela graça de Deus, acender na Inglaterra um facho que, tenho a certeza, nunca mais se extinguirá".


A frase - que mais tarde se sabe ter sido dita por um homem chamado Latimer a outro, Nicholas Ridley, no momento em que iam ser queimados vivos por heresia, em Oxford, a 16 de Outubro de 1555 - é recuperada pela mulher idosa que, vendo a sua casa ser invadida pelos bombeiros, entre os quais Montag, empenhados na missão de incendiar os livros proibidos que escondia no sótão, decide imolar-se - e à casa, e aos livros - pelo fogo, roubando aos incendiários a iniciativa e a própria morte.




Mas como pode uma frase destas, de 1555, chegar ao futuro desconhecido onde acontece este Fahrenheit 451? A resposta é óbvia: através dos livros. A própria origem da citação é revelada por um bombeiro, que confessa que de tantos livros queimarem há frases, soltas, que lhe povoam a mente. O pintor surrealista Salvador Dali chamar-lhe-ia a persistência da memória, os amantes dos livros sabem que os livros são a própria memória, não apenas do real mas também do imaginado, daquilo que é terreno dos sonhos e, por isso, também capital de humanidade.

domingo, 5 de junho de 2011

Beija-Mim

Bastante embaraçado, Benjamin, lá perguntou: "Como é que se dá um beijo?" e Zé da Guiné, um desses moços bem mais experientes respondeu: "Com o coração."

(...)

Quando finalmente chegou o grande momento, tudo aconteceu..."Os lábios aproximaram-se sem regresso, colaram-se. Os dele estavam secos...os dela, terra líquida, prova de que a conversa não lhe esgotara a saliva. Benjamin estremeceu de desejo, da cabeça aos pés num alvoroço, a adrenalina a correr nas veias... Estava fora de si, numa outra dimensão, não conseguia controlar as batidas do coração. Esqueceu as dúvidas que o atormentavam, seco ou molhado? Com língua ou sem língua? O que é que isso interessava agora? Agora, estava a beijar Pureza. - Beija-Mim - dizia ela, cada vez que os seus lábios se descolavam. Esta história intrigava-o, não percebia porque é que ela insistia em repetir o seu nome, mas não conseguia pensar... (...)De repente, fez-se luz na sua cabeça. A ansiedade e a insegurança tinham-lhe entupido as ideias, por pouco não arruinaram aquele momento. Não estragaram o primeiro beijo. Agora percebia tudo. Da próxima vez que Pureza lhe dissesse: «Beija-Mim», Benjamin encheria o peito de paixão e, com segurança de novela, apenas lhe diria: - Sim, meu amor."


Uma linda história de AMOR inesquecível!!! Um beijo, seco ou molhado, com língua ou sem língua, tem acima de tudo que ser dado com o coração...

sábado, 4 de junho de 2011

Estorvo


Conta-se a história de um homem só na grande cidade, desintegrado de um meio onde predomina a exterioridade, a vaidade e o materialismo. A futilidade das classes superiores, da alta burguesia a que a sua família pertence, contrasta com a miséria que alimenta o crime. Entre uma família fútil, de corações entorpecidos pela fortuna e um bando de criminosos com os quais se envolve, o nosso personagem caminha na solidão, na incerteza, na falta de identidade.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A religião da comunicação mediática

"Não acredito que o serviço público possa ser adequadamente assegurado por operadores privados."

Mário Mesquita

Alguma televisão argumenta que é o que é em resultado de sondagens, de uma interactividade essencialmente democrática. Isso é, realmente, participação...? Há quem fale em demagogia...
Nem tudo é demagogia nesse plano. Na área das novas tecnologias da comunicação, designadamente na Internet, há motivos para uma grande esperança quanto à possibilidade de interactividade, de diálogo, de debate. É um espaço fortemente investido por lógicas económicas, comercias e publicitárias, mas que rompe, inegavelmente, com a lógica do (quase) monopólio dos comunicadores que domina nos media tradicionais (televisão, rádio e jornais). Resta saber em que medida estes poderiam, recorrendo às potencialidades das novas tecnologias, desenvolver novas práticas interactivas...
E no domínio específico dos media portugueses...?
...Na televisão tenho visto sobretudo encenações de interactividade: as tais sondagens telefónicas, por exemplo. Além disso, existe a tendência para transformar pessoas comuns em vedetas de televisão, fazendo-as sair do anonimato por uma hora, o que se relaciona com a utilização da TV enquanto gestora de afectos e emoções... E isso - mesmo que não tenha interesse do ponto de vista da estruturação de um regime democrático - possui determinado valor na perspectiva da sociedade em que vivemos e de quem participa como actor convidado nesses espectáculos...
...Os reality shows, acha...?
...Pois... Mas, além disso, há lugares de debate, como o Fórum TSF, que têm desempenhado um papel interessante. Nele participam, lado a lado, líderes de opinião (políticos, económicos, culturais) e pessoas desconhecidas do "grande público", além de um terceiro género, mais difícil de reconhecer, constituído por "porta-vozes" de determinadas forças que não se apresentam identificados como tal... O que entrou em declínio foi o debate organizado com participantes escolhidos em função de critérios de representatividade político-social ou da respectiva ligação às instituições de ensino, de cultura, de investigação. Há uma atitude negativa em relação a esse tipo de entrevistas, por ser gerador de fraca rentabilidade em termos de audiências. Além disso, certos jornalistas parecem acreditar que podem substituir, com vantagem, os actores políticos, sociais e culturais dotados de certo tipo de representatividade...

(Entrevista a Mário Mesquita)

A Universidade e a prática

A Universidade está a preparar os jornalistas convenientemente...?

Bem, como sabe, eu sou de História, não sou de Comunicação Social... Mas acho que a Universidade, nos cursos que conheço - e não quero citar nenhum por motivos que compreenderá -, está ainda mais longe da profissão. Ou seja, a nossa Universidade dá sociologias, antropologias, dá linguísticas, dá uma preparação nos domínios das ciências sociais, et., etc. Mas está profundamente cortada da prática profissional e social do jornalista. Isto é, o licenciado, em certo sentido, tanto podia ser licenciado em História como em Comunicação Social - é a mesma coisa. Devo aliás dizer-lhe que há muitos licenciados em História que têm mais preparação em Comunicação Social porque têm exactamente História. E há muitos cursos de Comunicação Social que não dão sequer História...!

..Nem História do Jornalismo...?!
História do Jornalismo creio que dão, mas História-História, História geral, não. Estamos no século XX e ser-se jornalista é tratar dos acontecimentos deste século. Já agora conviria saber alguma coisa para trás... Portanto, eu acho que há ainda um certo corte entre a Universidade e a profissão. Admitindo embora que, ultimamente, esse corte tem sido um pouco diminuído com a incorporação na Universidade de alguns homens de qualidade vindos da comunicação social. Mas eu diria que a Universidade em geral não tem uma política de formar jornalistas. Melhor: não tem um modelo de jornalismo a formar. Porventura, não tinha que ter. O certo é que a Universidade prepara umas pessoas com uns conhecimentos, úteis do ponto de vista da sua formação cultural geral, mas que estão desligados da prática da profissão.

E essa prática da Universidade é um caso particular ou ela, no fundo, faz o mesmo com os futuros arquitectos, os futuros engenheiros, os futuros médicos...?

Não me atreveria a generalizar... Pode ser uma tendência geral, mas acho que no jornalismo é particularmente grave. Porque o jornalismo é uma responsabilidade social muito grande...

Mas não é para isso que a Universidade existe... - para as grandes responsabilidades sociais...?

Exactamente, mas digamos que 80% dos docentes estão completamente desligados do jornalismo. Muitos deles são professores de outras disciplinas das ciências sociais, dão ali alguns conhecimentos... - e eu acho que isso desligou muito os cursos da realidade da profissão.

(Entrevista a Fernando Rosas)