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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Censura e eufemismos infantilizantes...


«Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queimemo-lo. A Cabana do Pai Tomás não agrada aos brancos. Queimemo-lo. Um tipo escreveu um livro sobre o tabaco e o cancro do pulmão? Os fumadores de cigarros ficam consternados. Queimemos o livro. (…) Liquidemos os problemas, ou melhor ainda, lancemo-los no incinerador. (…) Queimemo-los, queimemos tudo.»

A teoria, explicada pelo capitão dos bombeiros, Beatty, a Montag, resume a filosofia vigente. Só no livro? Bem, talvez não tenhamos chegado a tanto, mas a tendência actual é para eufemizar tudo, da velhice à morte, do perigo à tristeza. O que não queimamos, escondemos. O que não embelezamos, tratamos com anti-depressivos. Teríamos hoje as obras-primas da literatura, e de outras artes, se os seus autores tivessem vivido na era Prozac? Mesmo em Portugal, país que Miguel de Unanumo chamou de suicida, o que seria de O Só, de António Nobre? Da poesia de Florbela Espanca ou de Fernando Pessoa? O que seria de nós sem o direito a aceder ao nosso lado lunar?
O que será de nós...






segunda-feira, 6 de junho de 2011

Memória e dignidade

"Seja um homem, Senhor Ridley. Vamos hoje, pela graça de Deus, acender na Inglaterra um facho que, tenho a certeza, nunca mais se extinguirá".


A frase - que mais tarde se sabe ter sido dita por um homem chamado Latimer a outro, Nicholas Ridley, no momento em que iam ser queimados vivos por heresia, em Oxford, a 16 de Outubro de 1555 - é recuperada pela mulher idosa que, vendo a sua casa ser invadida pelos bombeiros, entre os quais Montag, empenhados na missão de incendiar os livros proibidos que escondia no sótão, decide imolar-se - e à casa, e aos livros - pelo fogo, roubando aos incendiários a iniciativa e a própria morte.




Mas como pode uma frase destas, de 1555, chegar ao futuro desconhecido onde acontece este Fahrenheit 451? A resposta é óbvia: através dos livros. A própria origem da citação é revelada por um bombeiro, que confessa que de tantos livros queimarem há frases, soltas, que lhe povoam a mente. O pintor surrealista Salvador Dali chamar-lhe-ia a persistência da memória, os amantes dos livros sabem que os livros são a própria memória, não apenas do real mas também do imaginado, daquilo que é terreno dos sonhos e, por isso, também capital de humanidade.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Mecânico, o Cão. Mecânico, o Homem.


Em Fahrenheit 451, a acção começa com três personagens principais: temos Montag, o anti-herói que se vai reabilitando; a sua mulher, Mildred, que pela tentativa de suicídio evolui, no enredo, de morta-viva para alienada mas com alma; e a jovem Clarisse, a louca que nos surge como último vestígio da sociedade humanizada tal como a compreendemos, capaz de se maravilhar com os pingos da chuva, de brincar com um dente-de-leão e de tentar pensar sobre o mundo que a rodeia.

Mas, para além destas personagens, há outras, secundárias, mas que nos cativam. Deixo-vos com a minha preferida... até agora.

Mecânico, o cão, é o sucessor robótico do típico dálmata que, tradicionalmente, é mascote das corporações de bombeiros*. Mas, como é de prever num mundo onde o papel dos bombeiros é atear fogos, e não apagá-los, Mecânico não é uma mascote vulgar. Desde logo porque, já o dissemos, é robótico. Mas sobretudo porque é letal: consoante uma programação para detectar odores e composições químicas, Mecânico ataca. E mata. Sem remorso, sem fuga possível. E sem problema, até ao dia em que Montag, o nosso herói, começa a pensar - sempre o maldito vício humano de pensar a provocar as mudanças que movem o mundo - e se interroga o que acontecerá se programarem o Mecânico para detectar o seu odor corporal.

Todas as armas nos parecem inofensivas - pelo menos ignorámo-las como tal - até ao momento em que as visualizamos a serem utilizadas em nós ou nos que amamos. E essas armas podem ser de fogo ou de poder, isto é, contra os direitos, liberdades e garantias de todos e cada um. Recordo, a propósito, uma citação de Voltaire,o poeta, ensaísta, dramaturgo, filósofo e historiador iluminista francês, cuja morte aconteceu há exactamente 233 anos e dois dias. Voltaire, que defendia a liberdade de ser e pensar diferente, escreveu: "Posso não concordar com o que diz, mas defenderei até a morte o direito de o dizer".

Mecânico, o cão, é - na minha leitura - a metáfora para a nossa tendência para desvalorizar aquilo que, sabendo nós que é errado, que está mal, não nos afecta directamente... ainda. Em véspera de eleições, Mecânico pode ser a abstenção. Em tempo de casos mediáticos de violência juvenil, Mecânico é apontar um dedo sem compreender para onde apontam os outros quatro.

E um dia o cão morde.


*Muitos especialistas defendem que terá sido na Dalmácia que esta raça, que acompanhava frequentemente as caravanas ciganas, começou a correr ao lado dos veículos, puxados a cavalos, em que os primeiros bombeiros iam combater os fogos.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Fahrenheit 451 - Mundo virtual, consumismo e outros pecados contemporâneos




Quando acorda da sua tentativa de suicídio, Mildred não se recorda de nada. Esfomeada e “com a boca a saber a papéis de música”, recusa-se a acreditar no que o marido lhe conta e apressa-se a regressar ao seu mundo virtual e à família imaginária feita de personagens que deslizam nas paredes-ecrã, cada uma programada para conversar com ela. “Eu acho isto divertidíssimo”, comenta, perguntando ao marido quando pensa que poderão substituir a quarta parede por uma parede-ecrã, ansiosa por ficar, assim, finalmente, absolutamente rodeada, ilhada, por aquele universo irreal. “Custa apenas dois mil dólares”, acrescenta, perante a aparente incompreensão do marido face a esta sua necessidade urgente, sugerindo mesmo que prescindam de “algumas outras coisas”.
Montag tenta explicar à esposa que os “apenas dois mil dólares” representam um terço do seu soldo anual, e lembra-lhe que a terceira parede-ecrã ainda está a ser paga, comprada que foi há apenas dois meses. Mas a mulher já não o ouve, submersa que está nas actividades dos outros membros da sua família, os virtuais, muito mais interessantes.

Nota: Esta cena, no livro, quase passa despercebida. Mas, quando a li, fez-me reflectir na nossa sociedade de consumo: na ânsia – ou indiferença – com que substituímos os entes queridos por programas de televisão, e na leviandade com que preterimos o essencial para adquirir, muitas vezes, o superficial, optando por mudar de carro ou comprar uma nova televisão quando na despensa falta o leite ou os dons latentes nos filhos reclamam por aulas de artes…

sábado, 21 de maio de 2011

Fahrenheit 451 - 1ª parte - A fornalha e a salamandra: Sonho, suicídio e despertar

"Queimar era um prazer", admite Montag, o bombeiro cujo trabalho - como o de todos os colegas de profissão neste tempo futuro - é incendiar livros. De resto, tudo é ignífugo - à prova de fogo - e as pessoas já nem se recordam de um tempo em que a função dos bombeiros fosse outra, a de apagar fogos, e não a de os atear. Montag é uma dessas pessoas, até que a sua vida monótona é abalada por uma jovem e bela vizinha que, numa época sem questões, faz todas as perguntas de que se lembra: "Nunca lê os livros que queima?"; "É verdade que dantes os bombeiros apagavam o fogo em vez de o acender?"; "É feliz?". O bombeiro - que todas as noites chega a casa para encontrar a sua mulher invariavelmente envolvida por paredes televisivas que substituíram as pessas de pele e osso e a família, com micro-rádios nos ouvidos que a impedem de escutar os seus próprios pensamentos - começa a, heresia das heresias, pôr em causa tudo o que até então tinha como certo. Será feliz? Pensava que sim. E a sua mulher, Mildred, também.

Mas depois encontra-a quase-morta, frasco de comprimidos ao lado da cama, micro-rádios nos ouvidos, uma desconhecida, afinal, que não recorda sequer como entrou na sua vida. Pede ajuda, aguarda médicos e recebe a visita de homens de limpeza, que aspiram a morte do estômago da mulher e partem, não reconhecendo o drama, nem a morte, nem a vida.

Montag, porém, parece estar a despertar...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Fahrenheit 451, metáfora para o salazarismo obscurantista?

É entrelinhas que um livro se torna único. É entrelinhas que o meu livro é diferente dos outros milhares impressos com o mesmo título e a mesma capa. Porque é entrelinhas que cada leitor retira, de cada vocábulo, frase ou parágrafo, algo de só seu. Porque o que lemos é sempre diferente do que está escrito: acrescentamos aos caracteres as nossas experiências, recordamos cheiros, sabores, histórias de outros livros.


A leitura dos portugueses, como povo, também difere das dos leitores de outros países, na exacta medida em que as suas experiências colectivas são distintas das nossas. Para além de que – excepção feita aos intelectuais poliglotas puristas (a designação não encerra nenhuma crítica, bem pelo contrário) que lêem os livros na versão e língua originais – a própria tradução das obras para as línguas nativas dos leitores de diferentes países contribui para uma diferenciação significativa da mensagem. Neste caso, é da mais elementar justiça referir que a tradução de «Fahrenheit 451» que escolhi foi realizada por Mário Henrique Leiria. Adiante.
“Fahrenheit 451” é um livro, pequeno em dimensão, que aborda uma questão maior na experiência portuguesa: a da censura e do domínio sobre o povo pela proibição da instrução e promoção do entretenimento fácil. Mesmo sem recuar aos tenebrosos tempos da Inquisição ou do Santo (?) Ofício (quando em 1539, o irmão mais novo do rei D. João III, cardeal D. Henrique, foi nomeado inquisidor-geral do Tribunal do Santo Ofício, os livros que não caíam nas suas boas graças, de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, até “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, podiam resultar em penas pesadas aos seus autores, editores e leitores), é possível encontrar, na nossa História recente, um paralelismo com o tema central de “Fahrenheit 451”. No período do chamado Estado Novo e do regime salazarista, um Portugal analfabeto era «alimentado» com a trilogia “Fado, futebol e Fátima”, que outros reduziram à expressão “pão e circo”.


Alexandre Herculano escreveu sobre o assunto:
"Onde quer que apareça a censura, onde quer que se aninhe esta irmã gémea da Inquisição, há uma quebra nos foros da independência do homem, há uma insolência do passado contra a dignidade social da geração presente. Seja para o que for, a censura é um impossível político."

Mais recentemente, Anele Reis, autora de um apontamento sobre a censura, publicado no mensário «Portugal Socialista», de Janeiro de 1983, também refere:
"A censura, numa prática constante e presente através da cultura portuguesa, como dado negativo que é, contribuiu para forjar nossa maneira de ser e de estar no mundo, modelou comportamentos, estabeleceu preconceitos que vêm preocupando historiadores da cultura..."

Um dos últimos relatórios da actividade da Comissão de Censura, referente a Janeiro de 1974, indica quase centena e meia de títulos retirados do mercado em apenas um mês. Segundo afirmou, em 1984, a Comissão do Livro Negro do Fascismo, foram proibidas durante o regime Salazar/Caetano cerca de 3300 obras.

Felizmente, como em “Fahrenheit 451”, em Portugal há, nas palavras imortalizadas por Zeca Afonso, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. No livro de Ray Bradbury, como no Portugal cinzento de Salazar, houve quem desafiasse as ordens e lesse, e falasse sobre o que leu, e pensasse. E o pensamento, que a literatura estimula como nenhuma outra arte (na minha modesta e assumidamente suspeita opinião), vence sempre a ignorância, por mais armada.

Vamos ler?




(Para mais informações sobre a censura em Portugal, ver http://www.vidaslusofonas.pt/livros_e_censura.htm)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma visão diferente, de um livro que continua actual

A voz ao autor... ainda vivo e criativo.

Um americano no mundo



Ray Bradbury é um daqueles escritores cuja obra muda a maneira como as pessoas pensam. Com mais de quinhentas obras publicadas – entre contos, romances, peças teatrais, guiões e poesia – Ray Bradbury personifica o imaginário americano na sua forma mais criativa.

Ray Douglas Bradbury (Waukegan, 22 de Agosto de 1920) é um escritor de contos de ficção-científica norte-americano de ascendência sueca. Bradbury é mais conhecido pelas suas obras The Martian Chronicles (Crónicas Marcianas) (1950) e sobretudo Fahrenheit 451 (1953), que 13 anos mais tarde seria trasnposto para o cinema por François Truffaut.

A escrita de Bradbury é peculiar: depois de lidas, as suas palavras não são esquecidas. Em reconhecimento da sua actividade, e do impacto que teve em tantos ao longo de tantos anos, Bradbury recebeu o National Book Award em 2000.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Fahrenheit 451


"Fahrenheit 451" é um livro sobre a importância dos livros para a Humanidade.
Escrito por Ray Bradbury e publicado pela primeira vez em 1953, o romance passa-se num futuro onde os livros são proibidos... e queimados: 451 graus fahrenheit é a temperatura a que um livro é destruído pelo fogo.
Nesta sociedade controlada e controladora - em que os livros são vistos como potenciais estimuladores do pensamento crítico que encerra em si mesmo a capacidade de destabilizar a ordem criada - os bombeiros têm uma missão muito especial: queimam livros. Mas... e se um dia, por acidente ou porque a curiosidade e a desobediência são próprias do ser humano, um bombeiro lê um excerto de um livro antes de o queimar? Conseguirá prosseguir com o seu trabalho destruidor?

Este é o enredo de Fahrenheit 451, que vamos acompanhar nas próximas semanas.