segunda-feira, 30 de maio de 2011

Beija-Mim

"Pureza era diferente. (...)Ela tinha a rara capacidade de fazer parar o tempo, sabia que o futuro é um instante, parece que nos escapa mas dura a eternidade. Benjamin ficava ao seu lado, nada dizia, apenas sentia o bater do seu coração, cada vez mais forte, (...) pronto a saltar do peito. E foi num destes momentos que do nada, de repente, sem aviso prévio, deixou cair a bomba.

- Amanhã, dou-te um beijo.

Ele ficou sem palavras, ela encheu-se de risos. A cabeça de Benjamin começou a andar à roda, às voltas.

(...)

Quando recuperou, percebeu que não tinha muito tempo para ensaiar. O primeiro beijo tinha dia e hora marcada. Era já amanhã."


Momentos inesquecíveis na vida deste Benjamin e que no fundo também já fizeram parte de momentos vividos por nós...

Beija-Mim

"A realidade do bairro era demasiado forte, acontecia mesmo de olhos fechados. (...) Pureza tinha cinco irmãos mais novos para cuidar, muita roupa suja para lavar, pouca comida para cozinhar. (...)Pureza tinha o olhar suave, doce, tranquilo, um daqueles olhares que nunca se calam, que falam, falam, falam."

(...)

"Pureza devia ser da mesma idade de Benjamim."

(...)

"Eram alma com coração, completavam-se nos mais pequenos nadas e nas grandes coisas também."

(...)

"Pureza, que é princesa, foi a única menina do mundo que foi além da amizade...e resvalou para o amor."


O amor aos doze anos...inesquecível não acham?! Muita magia no ar...

Estorvo


A narração desenvolve-se a níveis diferentes, de um lado um nível menos denotativo em termos de linguagem narrativa, usa com cautela os adjectivos,
podemos chamar objectivo e factual, actuam sistematicamente níveis que se deslocam no tempo e no espaço do livro através de digressões dependentes do lado mais subjectivo, conjugando e cruzando os recursos da memória, da imaginação e do sonho o protagonista conduz o leitor no seu mundo onde a vigília cruza-se com o sono, e o real confunde-se com o possível.

Olá Petizada! Prontos para a galhofa?

A Caderneta de Cromos é um livro singular! À medida que começamos a desfolhar o livro, somos levados numa surpreendente viagem aos anos 70 e 80. Histórias comuns a todos nós e separadas estrategicamente em 5 categorias: Comer; Brincar; Usar; Ver; Ouvir.
Para complementar os relatos deste "mundo mágico do antigamente", Nuno Markl contou com a fantástica ilustração de Patrícia Furtado. No entanto, existe ainda a possibilidade de fazermos o download dos cromos a cores, imprimir e cola-los por cima dos impressos a preto e branco no livro.

E assim começa a viagem: "Olá, petizada! Prontos para a galhofa?"
"Parabéns por teres adquirido esta interessante colecção de cromos em que recordarás algumas das tuas coisas favoritas dos anos 70 e 80, esse tempo mágico em que não eras só a criança interior, mas também exterior. Ena, onde isso já vai! (...) Diverte-te! E pratica sempre o bem, como o MacGyver - mas evita aquele cabelo."

sábado, 28 de maio de 2011

Uma pequena ideia do romance

O romance é um movimento quase contínuo, em que o ritmo das deslocações do protagonista aparece sempre acelerado pelo ritmo dos seus pensamentos, e são poucos os momentos em que a acção não é verdadeiro movimento físico. O espaço representado não ultrapassa os arredores da cidade, mas a rapidez com que ele é atravessado intensifica-o, ou melhor, densifica-o. Assim, as deslocações na cidade, ou entre a cidade e a casa do campo, que se verificam nos três dias e meio em que se cumpre a história, oscilam entre planos diferentes em que actua um peculiar recurso de narração ditado pelo olhar do protagonista que, ainda não foi dito, conta em primeira pessoa a sua história.

Beija-Mim

"Pureza é nome de princesa. A única de carne e osso que Benjamim conhecia. Nos seus 12 anos de existência, das outras só ouvira falar. Contavam-se que eram belas, donas de tesouros, castelos e príncipes bem-falantes.(...)Nunca na vida tinha visto uma, não sabia se eram altas ou baixas, gordas ou magras. Em rigor, até podia jurar que não existiam, quem o iria desmentir? Certamente, não seria Patraquim, o seu amigo do peito. Sabia da vida tanto quanto ele, não enxergava para além da fronteira do olhar.

Pureza era uma princesa de verdade. Nem nos sonhos mais doces vivia num mundo de fantasia."


Viva a primeira paixão...!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Fahrenheit 451 - Mundo virtual, consumismo e outros pecados contemporâneos




Quando acorda da sua tentativa de suicídio, Mildred não se recorda de nada. Esfomeada e “com a boca a saber a papéis de música”, recusa-se a acreditar no que o marido lhe conta e apressa-se a regressar ao seu mundo virtual e à família imaginária feita de personagens que deslizam nas paredes-ecrã, cada uma programada para conversar com ela. “Eu acho isto divertidíssimo”, comenta, perguntando ao marido quando pensa que poderão substituir a quarta parede por uma parede-ecrã, ansiosa por ficar, assim, finalmente, absolutamente rodeada, ilhada, por aquele universo irreal. “Custa apenas dois mil dólares”, acrescenta, perante a aparente incompreensão do marido face a esta sua necessidade urgente, sugerindo mesmo que prescindam de “algumas outras coisas”.
Montag tenta explicar à esposa que os “apenas dois mil dólares” representam um terço do seu soldo anual, e lembra-lhe que a terceira parede-ecrã ainda está a ser paga, comprada que foi há apenas dois meses. Mas a mulher já não o ouve, submersa que está nas actividades dos outros membros da sua família, os virtuais, muito mais interessantes.

Nota: Esta cena, no livro, quase passa despercebida. Mas, quando a li, fez-me reflectir na nossa sociedade de consumo: na ânsia – ou indiferença – com que substituímos os entes queridos por programas de televisão, e na leviandade com que preterimos o essencial para adquirir, muitas vezes, o superficial, optando por mudar de carro ou comprar uma nova televisão quando na despensa falta o leite ou os dons latentes nos filhos reclamam por aulas de artes…

terça-feira, 24 de maio de 2011

Olhar atento...

A leitura só é verdadeiramente uma experiência enriquecedora quando é partilhada... Continuem a partilhar.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Só visto...

Deixo-vos aqui um vídeo gravado durante uma das emissões da "Caderneta de Cromos" de Nuno Markl, na Rádio Comercial. A boa disposição reina nos estúdios da Comercial, no entanto só depois de vermos o vídeo percebemos o nível humorístico de Markl.

domingo, 22 de maio de 2011

Dino Meira interpreta "Viva Emigrante Viva"

Para complementar a temática da emigração, abordada no "Livro", encontrei este tema interpretado pelo cantor Dino Meira. Ao longo da canção são enumerados todos aqueles que, um dia partiram na ânsia de melhorar as suas condições de vida, sem nunca esquecerem as suas raízes.  A música popular portuguesa é mais um exemplo das diversas homenagens aos emigrantes portugueses. Merecidas!

Breve resumo do "Livro"

A obra de José Luís Peixoto,“Livro”, retrata a diáspora ocorrida nos anos 50 e 60, para França. A procura de melhores condições de vida, o visível atraso de Portugal em relação à Europa, a fuga ao serviço militar e ao regime Salazarista, estiveram na origem desta emigração
Camponeses crentes, impulsionados pelo sonho de uma vida melhor, sem opressão, sem fome, sem medo e com mais oportunidades, partem à descoberta de uma nova realidade. Contudo, a realidade precária encontrada nos bairros de Bidonville, revelar-se-ia diferente da idealizada, atendendo à  falta de condições mínimas para se viver. 
Temáticas como, a ruralidade, a emigração, socialização são descritas ao longo da narrativa, sem nunca esquecer o traço distintivo do Povo português: a sua Identidade cultural. Um romance fantástico que, segundo o autor pretende "heroicizar os portugueses, o povo português". A não perder!

E agora... um pouco da história...






O rei D. João III de Portugal resolve oferecer o elefante a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, resolve dois problemas de uma assentada: encontrar um presente de excepção à altura do presenteado e dar um destino ao elefante...

Não percam os próximos episódios da viagem do Elefante Salomão...

sábado, 21 de maio de 2011

Fahrenheit 451 - 1ª parte - A fornalha e a salamandra: Sonho, suicídio e despertar

"Queimar era um prazer", admite Montag, o bombeiro cujo trabalho - como o de todos os colegas de profissão neste tempo futuro - é incendiar livros. De resto, tudo é ignífugo - à prova de fogo - e as pessoas já nem se recordam de um tempo em que a função dos bombeiros fosse outra, a de apagar fogos, e não a de os atear. Montag é uma dessas pessoas, até que a sua vida monótona é abalada por uma jovem e bela vizinha que, numa época sem questões, faz todas as perguntas de que se lembra: "Nunca lê os livros que queima?"; "É verdade que dantes os bombeiros apagavam o fogo em vez de o acender?"; "É feliz?". O bombeiro - que todas as noites chega a casa para encontrar a sua mulher invariavelmente envolvida por paredes televisivas que substituíram as pessas de pele e osso e a família, com micro-rádios nos ouvidos que a impedem de escutar os seus próprios pensamentos - começa a, heresia das heresias, pôr em causa tudo o que até então tinha como certo. Será feliz? Pensava que sim. E a sua mulher, Mildred, também.

Mas depois encontra-a quase-morta, frasco de comprimidos ao lado da cama, micro-rádios nos ouvidos, uma desconhecida, afinal, que não recorda sequer como entrou na sua vida. Pede ajuda, aguarda médicos e recebe a visita de homens de limpeza, que aspiram a morte do estômago da mulher e partem, não reconhecendo o drama, nem a morte, nem a vida.

Montag, porém, parece estar a despertar...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Cada um faz deste livro o que quer..."




Vamos perceber nas palavras de Jorge Araújo o que é o seu livro...a história que tomou conta da sua cabeça...cada vez que a sua princesa o beijava dizia Beija-Mim...

A Galáxia de Bill Gates

Os filhos de Bill Gates
O jornalista já não é filho de Homero nem de Fernão Lopes, é, hoje, pura e simplesmente, filho do Bill Gates...?

"Uma das questões centrais que este livro coloca é saber se o jornalismo - o da sociedade da informação, da globalização, da convergência dos mass media, das telecomunicações e da Internet - continua a ser implicitamente, também, um acto cultural."
Este livro colhe a opinião diversa de importantes figuras da vida política, jornalística e cultural portuguesa, tais como Agustina Bessa-Luís, Eduardo Lourenço, Fernando Rosas, Mário Mesquita e Mário Soares. Artur Portela coloca questões centrais sobre o que é hoje o jornalismo.

Artur Portela - Biografia

Artur Portela filho, nascido a 30 de setembro de 1937, uma referência do jornalimo português, vem de uma família de jornalistas e iniciou a sua actividade na redacção do Diário de Lisboa. Após o 25 de Abril, esteve na génese de diversos jornais, como o diário "Jornal Novo" e o semanário "Opção". Foi eleito por maioria qualificada da Assembleia da República para presidente do Conselho da Comunicação Social. Foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Com regularidade colaborou nos jornais "Diário de Notícias", "A Capital", "O Jornal" e o "Jornal do Fundão". Publicou diversos livros centrados nas suas intervenções jornalísticas fortemente críticas e satíricas, muitas delas censuradas, como a Feira das Vaidades, a Nova Feira das Vaidades e A Funda. Algumas destas obras foram apreendidas pela polícia política salazarista. Como romancista, escreveu, entre outros, O Código de Hamurabi e a peça teatral A Rotativa. No plano científico, assinou ensaios sobre relações culturais entre o salazarismo e outros regimes ditatoriais europeus.

O Cromo lança uma Caderneta :)

Indiscutivelmente Nuno Markl é, hoje, uma figura incontornável da comédia em Portugal.
Esta "Caderneta de Cromos" é um bom exemplo do valor deste grande humorista, assim como a sua capacidade nata de se rir de si próprio.
A "Caderneta de Cromos" obteve um enorme sucesso, não só pelo livro em si, mas pela recriação feita nas manhãs da Radio Comercial, onde Nuno Markl se juntou a Pedro Ribeiro, Vasco Palmeirim e Vanda Miranda.
Deixo-vos com um pequeno trecho da apresentação do livro, como prova do reconhecimento obtido .

Fahrenheit 451, metáfora para o salazarismo obscurantista?

É entrelinhas que um livro se torna único. É entrelinhas que o meu livro é diferente dos outros milhares impressos com o mesmo título e a mesma capa. Porque é entrelinhas que cada leitor retira, de cada vocábulo, frase ou parágrafo, algo de só seu. Porque o que lemos é sempre diferente do que está escrito: acrescentamos aos caracteres as nossas experiências, recordamos cheiros, sabores, histórias de outros livros.


A leitura dos portugueses, como povo, também difere das dos leitores de outros países, na exacta medida em que as suas experiências colectivas são distintas das nossas. Para além de que – excepção feita aos intelectuais poliglotas puristas (a designação não encerra nenhuma crítica, bem pelo contrário) que lêem os livros na versão e língua originais – a própria tradução das obras para as línguas nativas dos leitores de diferentes países contribui para uma diferenciação significativa da mensagem. Neste caso, é da mais elementar justiça referir que a tradução de «Fahrenheit 451» que escolhi foi realizada por Mário Henrique Leiria. Adiante.
“Fahrenheit 451” é um livro, pequeno em dimensão, que aborda uma questão maior na experiência portuguesa: a da censura e do domínio sobre o povo pela proibição da instrução e promoção do entretenimento fácil. Mesmo sem recuar aos tenebrosos tempos da Inquisição ou do Santo (?) Ofício (quando em 1539, o irmão mais novo do rei D. João III, cardeal D. Henrique, foi nomeado inquisidor-geral do Tribunal do Santo Ofício, os livros que não caíam nas suas boas graças, de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, até “A Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, podiam resultar em penas pesadas aos seus autores, editores e leitores), é possível encontrar, na nossa História recente, um paralelismo com o tema central de “Fahrenheit 451”. No período do chamado Estado Novo e do regime salazarista, um Portugal analfabeto era «alimentado» com a trilogia “Fado, futebol e Fátima”, que outros reduziram à expressão “pão e circo”.


Alexandre Herculano escreveu sobre o assunto:
"Onde quer que apareça a censura, onde quer que se aninhe esta irmã gémea da Inquisição, há uma quebra nos foros da independência do homem, há uma insolência do passado contra a dignidade social da geração presente. Seja para o que for, a censura é um impossível político."

Mais recentemente, Anele Reis, autora de um apontamento sobre a censura, publicado no mensário «Portugal Socialista», de Janeiro de 1983, também refere:
"A censura, numa prática constante e presente através da cultura portuguesa, como dado negativo que é, contribuiu para forjar nossa maneira de ser e de estar no mundo, modelou comportamentos, estabeleceu preconceitos que vêm preocupando historiadores da cultura..."

Um dos últimos relatórios da actividade da Comissão de Censura, referente a Janeiro de 1974, indica quase centena e meia de títulos retirados do mercado em apenas um mês. Segundo afirmou, em 1984, a Comissão do Livro Negro do Fascismo, foram proibidas durante o regime Salazar/Caetano cerca de 3300 obras.

Felizmente, como em “Fahrenheit 451”, em Portugal há, nas palavras imortalizadas por Zeca Afonso, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. No livro de Ray Bradbury, como no Portugal cinzento de Salazar, houve quem desafiasse as ordens e lesse, e falasse sobre o que leu, e pensasse. E o pensamento, que a literatura estimula como nenhuma outra arte (na minha modesta e assumidamente suspeita opinião), vence sempre a ignorância, por mais armada.

Vamos ler?




(Para mais informações sobre a censura em Portugal, ver http://www.vidaslusofonas.pt/livros_e_censura.htm)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O "Livro" no Youtube!

 Num breve resumo da obra, este vídeo promocional do "Livro" dá-nos a conhecer a realidade vivida ao longo do livro.Com imagens da terra-natal do autor, conta com a selecção musical dos Moonspell. Numa palavra, Sublime!


 


Estorvo

A excelente capacidade narrativa e poética de Chico Buarque ultrapassa o campo da música. Os livros de Chico Buarque dão-nos momentos de prazer impressionantes. Vejam só este excerto.

“(…) Como não conheço ninguém, tenho liberdade para contornar as mesas e emendar fragmentos de discursos, discussões, gargalhadas. Outras pessoas reúnem-se de pé na extensão do gramado, formando uma sequência de círculos. Posso observar como se comporta um círculo, como se fecha, como se abre, como um círculo se incorpora a outros. Vejo circunferências que se dilatam exageradamente, até que se rompem feito bolhas e dão vida a novas rodas de conversa. Vejo rodas sonolentas, que permanecem rodas pela geometria, não pelo assunto. Tento acompanhar assuntos que saem de uma roda para animar a outra, e a outra, e a outra, como uma engrenagem. Há instantes em que a festa inteira parece combinar uma pausa, e ouve-se então um acorde da orquestra que toca músicas dançantes no interior da casa.” Chico Buarque – Estorvo